segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Os santos da casa…Armando Silva Carvalho

O Livro do Meio
Já aqui no Itinerante foi referido o nome de Armando Silva Carvalho a propósito de A cultura e os filhos da terra. Agora, acabei de ler, com afincado prazer, o Livro do Meio da sua autoria e de Maria Velho da Costa.
Trata-se de um romance epistolar onde ambos autores retractam – com alguma ironia mútua - as suas origens e infância. O Armando, de famílias rurais - os Lavaduras - natural de Olho Marinho, concelho de Óbidos, e Maria Velho da Costa, pequeno – burguesa, filha de pai militar (oficial - comandante) e “mãe fina”. Ele proveniente do meio rural, ela do meio citadino. Têm em comum o nascimento no ano de 1938; ambos escritores reconhecidos e vasta obra publicada com prémios atribuídos. Politicamente, situam-se à esquerda: entre o PS ou esquerda caviar e o PC.
Fruto da convivida amizade e cumplicidades, decidiram ambos pôr a sua escrita em dia, que é como quem diz, a sua correspondência num livro. Fizeram de uma forma Grande, elegante e sem tabus, despidos de preconceitos. Pessoalmente, admirei bastante a coragem da exposição pública das suas vidas, família, amigos que o foram, ao estilo das Liaisons Dangereuses (Ligações Perigosas) de Choderlos de Laclos e de uma forma erudita apreciável. A crítica é favorável como se pode ler no extracto abaixo publicado no jornal Público, na ocasião:
« Ninguém estranhará que comece por reconhecer que a memorialística portuguesa é pobre. (…) Em Portugal, o busílis não está do lado de quem fez, está do lado das omissões. Se pensarmos naqueles que não arriscaram uma linha, e são quase todos, temos a medida do que somos.
…«Não admira que O Livro do Meio seja motivo de escândalo e atrabile. O país dos interditos convive mal com movimentos de câmara lenta. O rumor surdo da perplexidade traduz as reticências de regra. Afinal, o que é que leva dois autores consagrados, Armando Silva Carvalho e Maria Velho da Costa, nascidos ambos em 1938, à desabusada escavação da infância? Por que é que, sem perder Laclos de vista, foram ambos induzidos à narrativa da intriga? Valmont e a Merteuil trocaram o castelo de Madame de Rosemond pelo British Quintal? (O British Quintal é o jardim da casa de Maria Velho da Costa.) Pergunta ela: «E que fizemos à Merteuil e ao Visconde? / Devem ter-se tolhido com a tua abominação da aristocracia, a querela de classes, o Terror.» A questão não é inocente. E o protocolo não engana: nos interstícios do passado insinua-se a prova do quotidiano. Leitura do mundo: obras, autores, prémios, família, castas, ódios, equívocos, querela, política, dinheiro.
Ele vem da pequena burguesia rural, do tempo em que todos se roçavam para chegar a Rousseau, mas, ainda rapaz, tinha ou julgou ter «outras Luzes guias, outros holofotes virados para as bandas do colectivo.» Valmont também conquistou o seu destino, e há-de ter lido O Contrato Social. Ela vem da burguesia instalada no Ancien Régime, viu mundo, o lusco-fusco do British Quintal ajuda-a a enfrentar o passado: «Os afectos são flutuantes. É o que os torna perigosos. Mesmo no seio da família, ou pior ainda. Quem diria que, depois de amar tão apaixonadamente os meus, poderia ir até à aversão? Que mutila. O ódio mutila.» Pai militar, «bisonho e frugal», mãe amante do luxo: «Perfumes, jóias, sedas, peles, comida requintada. E de dançar e de sair.» Ele a brincar aos padres em Olho Marinho: «O padre foi, aliás, na panóplia de seres que andavam à volta dos meus anos tenríssimos, o meu homem de saias.» Lenta descoberta da sexualidade num tempo em que «o sexo não existia em lado nenhum do corpo que a gente desse por isso.» Ela no Bairro Azul. Ele numa «província abaixo da meia-tigela [...] e não me peca a alma ao dizer que tinha costeleta de porco uma vez por semana após a missa. Outros comeriam feijões, pão duro, e quando.» Nítidas, as origens. A mnemónica deixa cicatrizes. O rapaz veio para a cidade, estudar e fazer pela vida. A rapariga não esqueceu o crivo apertado do Palácio das Madres, feudo das “Grandes”, um dia libertou-se e percebeu: «É toda uma cópia de contrastes, esta vida.» Muita água passou sob as pontes. Estão sentados no British Quintal, fazem parte do Meio, não há como fugir ao Meio, são consequência do Meio. Ela não poupa no desdém: «Há pouca gente tão ignara e arrogante como esses oxfordinhos de segunda. Cheios de mofo daqueles departamentos que fenecem, daqueles parques infantis para adultos, que consentem, salvo raras excepções entrincheiradas na excentricidade, dar diplomas a medíocres que seriam, na Sorbonne ou no MIT, mandados de volta à instrução primária.» Ele, sem sair da mesma área sociológica, tem o seu quinhão.… Quem conheça a obra dos co-autores encontra aqui um prolongamento das obsessões de ambos. O Armando Silva Carvalho de Portuguex (romance, 1977) ou de Elena e as Mãos dos Homens (contos, 2003) plasma-se na prosa sacudida desta “correspondência”. O mesmo se diga de Maria Velho da Costa, operando em flashback. Ouvindo-a discorrer sobre o rito de passagem que representou o Palácio das Madres, somos levados a recordar episódios do primeiro livro, Lugar Comum (contos, 1966), ou mesmo daquele Maina Mendes (romance, 1969) que definitivamente a consagrou. No seu desconstruir metódico, O Livro do Meio põe a nu a tensão dialógica que as obras respectivas estabelecem entre si. Uma mais-valia nada despicienda, convenhamos.»

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Julgamento de Nuremberga-II

Réus , crimes e condenações
Dos 22 chefes nazistas julgados em Nuremberga, apenas um, Martin Bormann, condenado à morte, não esteve no banco dos réus. Dado como morto ou em fuga, foi condenado a revelia. Robert Ley, antigo chefe da Frente de Trabalho da Alemanha, suicidou-se antes do início do julgamento e Alfred Krupp, proprietário das grandes fábricas Krupp, salvo das leis do processo por uma doença providencial.
Todos os outros réus não se consideraram culpados quanto ao libelo de vinte e quarto mil palavras que os acusava de 4 crimes: conspiração, crimes contra a paz, crimes de guerra e crimes contra a Humanidade. Os julgados foram:
Hermann Wilhelm Goering, 53 anos, antigo chefe da Aviação alemã e sucessor designado por Hitler e seu partidário desde o início, tendo tomado parte no malogrado golpe de Munique em 1923. Como ministro do Interior, interino, da Prússia, em 1933, assinou a primeira lei criando a Gestapo e os campos de concentração naquele Estado. Foi acusado de ser responsável pelo fuzilamento dos homens dos «comandos» aliados e de ter planeado o emprego de trabalho escravo e de ter ordenado o bombardeamento das cidades abertas de Coventry, Varsóvia e Roterdão. Goering foi condenado à morte por enforcamento, mas menos de duas horas antes de subir ao cadafalso ingeriu uma ampola de cianeto de potássio que trazia escondida. Morreu em poucos minutos na própria cela. Goerin foi considerado culpado das 4 acusações que sobre ele impendiam.
Joachim von Ribbentrop, 53 anos, ex-embaixador em Londres, serviu Hitler como ministro dos Negócios Estrangeiros desde 1938 até ao colapso da Alemanha. Foi acusado de participar no extermínio racial, de ordenar o linchamento de aviadores aliados, de ter promovido a subida de Hitler ao Poder dos nazis e de ter aberto o caminho para as sucessivas agressões na Europa. Foi condenado à forca pelos 4 crimes de que era acusado.
Rudolf Hess, de 52 anos, aera adjunto de Hitler e seu adepto do nazismo desde o princípio. Fazia parte do gabinete ministerial da Defesa na véspera das forças alemãs invadirem a Polónia. Esteve a par das agressões contra a Áustria e a Checoslováquia e participou na execução desses ataques. Foi acusado de cumplicidade nas perseguições nazis aos adversários políticos, aos judeus e às diferentes Igrejas. Foi considerado culpado das duas primeiras acusações (conspiração e crimes contra a paz) e condenado a prisão por perpétua.
Hjalmar Schacht, o «feiticeiro» das Finanças, partidário activo dos nazis. Desempenhou um papel importante no vigoroso programa de armamento, utilizando recursos do Reichsbank de que era presidente do conselho de administração desse organismo financeiro, entre 1933 e 1937. Depois foi ministro da Economia de 1936 a 1939. No decurso da sua defesa insistiu que fora inimigo de Hitler e do regime nazi. Foi considerado isento de culpas e absolvido.
Exterminação
Ernest Kaltenbrunner, 43 anos, antigo chefe da Polícia de Segurança e adjunto de Heinrich Himmler, declarou «supor» não ser criminoso. Foi acusado de ordenar a execução de «indesejáveis» políticos e de morticínios em massa de civis nos territórios ocupados da Europa Ocidental e, principalmente, de crimes contra a Humanidade, ligados ao sistema dos campos de concentração. Considerado culpado pelas 3 acusações (conspiração, crimes contra a paz e crimes de guerra), foi condenado à morte por enforcamento.
Julius Streicher, de 61 anos, carrasco número um dos judeus, foi considerado pela acusação de «animal peçonhento e vulgar que manipulou e destribuiu imundos libelos raciais para auxiliar a progressiva e selvagem operação de depuração de raça». Também considerado culpado quanto à quarta acusação (crimes contra a Humanidade), foi condenado à forca.
Hans Frank, 46 anos qualificado como responsável pelas chacinas em grande escala, particularmente de «crimes de guerra contra a Humanidade, na administração de territórios ocupados», condenado à forca pelos 3 últimos crimes.
O marechal Wilhelm Keitel, de 63 anos, antigo chefe do estado-maior da Alemanha, foi julgado criminoso relativamente às 4 acusações, sublinhando-se que, por investigação sua, prisioneiros de guerra russos foram empregados na produção de material militar na Alemanha. Uma ordem de Keitel citado no Tribunal dizia que «por cada soldado alemão morto», de 50 a 100 comunistas deviam ser condenados à morte». Keitel foi condenado à forca.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Julgamento de Nuremberga-I

Clausewitz, general prussiano no século XIX definia a guerra como «um acto de violência para o qual não há limitação». Para este militar «a guerra é a continuação da política por outros meios».
Para o escritor Pierre Naville, todas as guerras giram em torno de dois conceitos: «a guerra absoluta, que corresponde ao ideal militar, e a guerra como instrumento da política».
Para Hitler a guerra deve substituir a política e para a corrente marxista a guerra e a política identificam-se.
Qualquer que seja a definição e o conceito de guerra – sempre ligada à política, como meio ou instrumento – de permeio ficam os crimes.
São os crimes de guerra que a história regista e que não se deve esquecer. A esse respeito, os massacres e genocídios nazis, estão ainda presentes.
A 20 de Novembro de 1945, o Tribunal de Justiça Internacional de Nuremberga iniciativa um dos mais discutidos julgamentos da história contemporânea. O julgamento de Nuremberga que reunia os vencedores da 2ª guerra mundial para julgar crimes cometidos pelo regime do III Reich : americanos, ingleses, russos e franceses. Havia em mãos documentos comprovadores dos crimes cometidos durante os anos do poder nazista na Alemanha e as suas consequências na Europa e no mundo, decidiram-se todos pelo julgamento dos envolvidos na guerra concebida pelo III Reich, no caso, vinte e dois dos mais destacados dirigentes nazistas.
Eram quatro as acusações que pesavam sobre os incriminados: conspiração, crimes contra a paz, crimes de guerra e crimes contra a humanidade. A todos foi permitida a escolha dos defensores, advogados ou não, mas essa missão tão ingrata quanto impossível, pois os acusadores, entre os quais, o mais destacado foi o norte-americano Robert Jackson. A maré de sangue havia sido estancado há apenas meses! As provas eram irrefutáveis e toda a Humanidade, horrorizada, pedia justiça para os milhões de inocentes que foram estrangulados pela máquina satânica do nazismo.
Emocionalmente, estava tudo preparado para a condenação dos réus. Os crimes contra eles avolumavam-se em pilhas de documentos apreendidos, em milhares de depoimentos, em milhões de pessoas massacradas, vítimas do selvático regime que conduziu os destinos da Alemanha durante anos.
Contudo, muitas são as objecções levantadas em torno do que se passou em Nuremberga. Como encarar o julgamento fora de um contexto estritamente político? Quais os fundamentos e as regras jurídicas que justificaram as penas? Violou-se o princípio de que não há pena sem lei (nulla poena sine lege ). Como compreender a absolvição de três dos acusados que, como era do conhecimento do Tribunal, foram peças importantes na máquina do III Reich?
Mas como julgar os dirigentes nazistas senão ajustando o mais possível as regras em vigor naquela época aos crimes por eles cometidos? Era preciso encarar no plano concreto os seguidores de Hitler. A via adoptada pelo Tribunal de Nuremberga continua a levantar muitas dúvidas, mas era impossível acatar a repetição daquilo que se verificou durante o julgamento de Leipzig a seguir a derrota alemã na primeira guerra mundial.
O julgamento de Nuremberga é geralmente qualificado como o maior julgamento da história (403 audiências plenárias e 2 400 horas de trabalho initerrupto…). A que realidades corresponde esta designação? Quando o encaramos pelos seus aspectos jurídico, político, moral e psicológico, não há dúvida que a designação se ajusta perfeitamente aos factos. Pela primeira vez se lançaram os alicerces de uma legislação penal internacional assente num princípio até então inteiramente desconhecido: a guerra de agressão passou a ser considerada um crime punível com a pena de morte, e o assassínio colectivo, o massacre por motivos raciais, religiosos ou quaisquer outros, designados com os mais hediondos delitos.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

As Amoras do poeta Eugénio de Andrade

Quando era miúdo corri e brinquei pelos campos como qualquer criança; apanhei amoras silvestres e o meu País era do tamanho da minha aldeia. Mas ninguém melhor que o poeta Eugénio de Andrade – já falecido – para associar as amoras bravas ao sabor do verão, à brancura dos muros e à dimensão da nossa Terra...
As Amoras

O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Eugénio de Andrade ("O Outro Nome da Terra")

quinta-feira, 11 de junho de 2009

As Conferências de Casino

A Conferência inaugural
A primeira conferência é anunciada pela “Revolução de Setembro” para sábado, 22 de Maio de 1871. Foi proferida por Antero de Quental, cujo manuscrito se terá perdido. Parece todavia que era hábito de Antero inutilizar os originais. Do seu discurso terá ficado aquilo que se convencionou chamar «Espírito das Conferências» porque não fora revelado o seu título. Há porém relatos publicados na gazeta “Revolução”.
Antero de Quental terá pronunciado o discurso de abertura das conferências e explicado a razão por que se faziam.
Todos sabiam que uma grande corrente de renovação estava agitando todas as sociedades. Era um grande movimento que se caracterizava por ninguém pedir nada ao passado e todos, universalmente, verem no presente uma época de transição para o futuro. Assim:
“Ninguém desconhece que se está dando em volta de nós uma transformação política, e todos pressentem que se agita, mais forte do que nunca, a questão de saber como se deve regenerar-se a organização social. Sob cada um dos partidos que lutam na Europa, como em cada um dos grupos que constituem a sociedade de hoje, há uma ideia e um interesse, que são a causa e o porquê dos movimentos.
Pareceu que cumpria, enquanto os povos lutam nas revoluções, e antes que nós mesmos tomemos
nelas o nosso lugar, estudar serenamente a significação desses interesses; investigar como a sociedade é, e como ela deve ser; como as nações têm sido, e como as pode hoje fazer a liberdade, e, por serem elas transformadoras do homem, estudar todas as ideias e todas as correntes do século.
Não pode viver e desenvolver-se um povo, isolado das grandes preocupações intelectuais do seu tempo; o que todos os dias a Humanidade vai trabalhando, deve também ser assunto das nossas constantes meditações.
Abrir uma tribuna onde tenham voz as ideias e os trabalhos que caracterizam este movimento do século, preocupando-nos sobretudo com a transformação social, moral e política dos povos;
Ligar Portugal com o movimento moderno, fazendo-o assim nutrir-se dos elementos vitais de que vive a Humanidade civilizada;
Procurar a
dquirir a consciência dos factos que nos rodeiam, na Europa;
Agitar na opinião pública as grandes questões da Filosofia e da Ciência moderna;
Estudar as condições da transformação política, económica e religiosa da sociedade portuguesa;
Tal é o fim das conferências democráticas.
Têm ainda elas uma imensa vantagem, que nos cumpre especialmente notar: preocupar a opinião com o estudo das ideias, que devem presidir a uma revolução, de modo que para ela a consciência pública se prepare e ilumine, é dar não só uma segura base à constituição futura, mas também, em todas as ocasiões, uma sólida garantia à ordem.
Posto isto, pedimos o concurso de todos os partidos, de todas as escolas, de todas aquelas pessoas que, ainda que não partilhem das nossas opiniões, não recusem a sua atenção aos que pretendem ter uma acção – embora mínima – nos destinos do seu p
aís, expondo pública mas serenamente as suas convicções, e o resultado dos seus estudos e trabalhos.
Lisboa, 16 de Maio de 1871 – Adolfo Coelho – Antero de Quental – Augusto Seromenho – Augusto Fuschini – Eça de Queiroz – Germano Vieira Meireles – Guilherme de Azevedo – Jaime Batalha Reis – J. P. Oliveira Martins – Manuel Arriaga – Salomão Saragga – Teófilo Braga.
Este foi o primeiro passo e um forte impulso para o movimento de ideias que um dia se traduziria em factos, em experiências, ora triunfantes ora malogradas.
Fotos:
Antero de Quental;
Adolfo Coelho;
Augusto Fischini;
Maunuel D´Arriaga

sábado, 30 de maio de 2009

As Conferências de Casino

III
A geração de 70
Antero, porém, que desembarcara em Lisboa, como um Apóstolo do Socialismo, a trazer a Palavra aos gentílicos, em breve nos converteu a uma vida mais alta e fecunda. Nós fôramos até aí, no Cenáculo, uns quatro ou cinco demónios, cheios de incoerência e de turbulência, fazendo um tal alarido lírico-filosófico que, por vezes, de noite, os dois cónegos estremunhados rompiam a berrar, o burro por baixo zurrava, desoladoramente, e no céu, sobre os telhados fronteiros, a lua parava, enfiada. Mas toda a nossa alma se ia nesse alarido, e o vento vão da boémia a levava, para onde leva as almas descuidadas e as folhas de louro secas…Sob a influência de Antero, logo dois de nós, que andávamos a compor uma ópera-bufa, contendo um novo sistema do Universo, abandonámos essa obra de escandaloso delírio – e começámos à noite a estudar Proudhon, nos três tomos da «Justiça e a Revolução na Igreja», quietos à banca com os pés em capachos como bons estudantes. Via-Láctea começou a varrer»
Foi Antero que imprimiu alguma ordem às reuniões indisciplinadas daquela mocidade turbulenta. Oliveira Martins e Ramalho Ortigão, atraídos pela importância dos problemas que ali se debatiam, não tardaram em intervir. Guerra Junqueiro como poeta e irreverente revolucionário. Outro vulto que se tornou assíduo do Cenáculo foi José Fontana que viria a desempenhar um papel importante no movimento democrático socialista. Batalha Reis a ele se refere do seguinte modo:
«As conversas tomavam então o carácter que ele infalivelmente lhes imprimia: a Revolução estala para a semana. E contava pormenores, mostrava cartas recebidas, que repentinamente lhe apareciam desdobradas nas mãos, e, num momento, também desapareciam, não se viam bem como, nas algibeiras interiores (…). «A Revolução social – seguir-se-ia, ou far-se-ia de per si só, de um modo infalível, absolutamente seguro, sem possibilidade de um revés».
Foi numa atmosfera buliçosa do Cenáculo que nasceu a ideia das conferências democráticas, já sob a égide de Antero de Quental, que todos consideravam, pela sua cultura e pela pureza das suas intenções, o seu verdadeiro “maestro”. Eça, na sua crónica, intitulada “Santo Antero,” diz-nos: «E do Cenáculo, de onde, antes da vinda de Antero (que foi como a vinda do Rei Artur à confusa terra de Gales), nada poderia ter nascido além da chalaça, versos satânicos, noitadas curtidas a vinho de Torres, e farrapos de Filosofia fácil, nasceram, “mirabile dictu”, as Conferências do Casino, aurora de um mundo novo, mundo puro e novo, que depois, oh dor! creio que envelheceu e apodreceu…»
Eça descrevia, a propósito das Conferências, num dos primeiros números das “Farpas”: Antes de haver conferências no Casino havia ali “cançonetas”.Mulheres decotadas até ao estômago, com os braços nus, a “pantorrilha” ao léu, a boca avinhada, cantavam, entre toda a sorte de gestos desbragados, um reportório de cantigas impuras, obscenas, imundas! Num verso bestial, a um compasso acanalhado, ridicularizava-se aí o pudor, a família, o trabalho, a dignidade, a honra, Deus! Eram também conferências do deboche. E havia muitos alunos!»
Fotos:1- Batalha Reis,; 2 - José Fontana e 3 -Eça de Queiroz.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

As Conferências de Casino

II
A geração de 70 (continuação...)
A ideia das Conferências de Casino surgira no ano de 1871 no Cenáculo, que “era uma reunião de rapazes”: uma espécie de boémia literária em que se discutia filosofia, letras, política, religião, tudo acompanhado de um berreiro ensurdecedor”.
Em princípio de 1867 ou 1968, em casa do sr. Jaime Batalha Reis, na esquina da Travessa do Guarda-Mor para a Ruas dos Calafates, actual Rua do Diário de Notícias, faziam parte deste primitivo grupo Eça de Queiroz, Salomão Saragga, Batalha Reis, Santos Valente, Mariano Machado de Faria e Maia e José Eduardo Lobo de Moura. Vinham também juntar-se a este grupo e participar nas ruidosas discussões, Augusto Fuschini, José Tedeschi, Fredeirco Filemon da Silva Avelino e o maestro Augusto Machado. Em Novembro de 1968 apresentou-se no Cenáculo Antero de Quental que regressara da Ilha de São Miguel. A influência de Antero era tal que passou a viver, pouco tempo depois, em casa de Jaime Batalha Reis. Conforme nos conta Eça de Queiroz - que já conhecia Antero de Coimbra :
« Enfim, Antero volta a Lisboa, encontra o Cenáculo. Encontra o nosso querido e absurdo Cenáculo instalado na Travessa do Guarda-Mor, rente a um quarto onde habitavam dois cónegos, e sobre uma loja em que se agasalhavam, como no curral de Belém, uma vaca e um burrinho. Entre essas testemunhas do Evangelho e esses dignitários de Igreja, rugia e flamejava a nossa escandalosa fornalha de Revolução, de Metafísica, de Satanismo, de Anarquia, de boémia feroz. Jaime Batalha Reis era o dono do aposento temeroso, e a Via-Láctea, galego ilustre, o seu servo. Via Láctea dormia pendurado, como um paio, da chaminé da cozinha. As suas ocupações não consistiam em escovar ou varrer. A Via- Láctea fora confiada a missão transcendente de espreitar a passagem da ideia ao longo do rio do Espírito, para nos avisar, e nós corrermos e a prendermos na rede rutilante do Verbo. Durante dois anos, cada dia, a hora de sol e a horas de treva, empurrámos nós com fragor a porta da cozinha, e berrámos com ânsia: « Via-Láctea! Via-Láctea! Viste enfim a Ideia Pura boiando na corrente Espiritual?...» E durante dois anos, Via-Láctea, de dentro da chaminé ou de sobre a tampa de um caixote, imutavelmente rosnou com uma dignidade triste: « Num bi nada». Aí Antero apareceu numa fria manhã – e foi aclamado.
Naquela viela de Lisboa ressuscitou então, por um momento, «a encantada e quase fantástica Coimbra».