quinta-feira, 23 de julho de 2009

Julgamento de Nuremberga-I

Clausewitz, general prussiano no século XIX definia a guerra como «um acto de violência para o qual não há limitação». Para este militar «a guerra é a continuação da política por outros meios».
Para o escritor Pierre Naville, todas as guerras giram em torno de dois conceitos: «a guerra absoluta, que corresponde ao ideal militar, e a guerra como instrumento da política».
Para Hitler a guerra deve substituir a política e para a corrente marxista a guerra e a política identificam-se.
Qualquer que seja a definição e o conceito de guerra – sempre ligada à política, como meio ou instrumento – de permeio ficam os crimes.
São os crimes de guerra que a história regista e que não se deve esquecer. A esse respeito, os massacres e genocídios nazis, estão ainda presentes.
A 20 de Novembro de 1945, o Tribunal de Justiça Internacional de Nuremberga iniciativa um dos mais discutidos julgamentos da história contemporânea. O julgamento de Nuremberga que reunia os vencedores da 2ª guerra mundial para julgar crimes cometidos pelo regime do III Reich : americanos, ingleses, russos e franceses. Havia em mãos documentos comprovadores dos crimes cometidos durante os anos do poder nazista na Alemanha e as suas consequências na Europa e no mundo, decidiram-se todos pelo julgamento dos envolvidos na guerra concebida pelo III Reich, no caso, vinte e dois dos mais destacados dirigentes nazistas.
Eram quatro as acusações que pesavam sobre os incriminados: conspiração, crimes contra a paz, crimes de guerra e crimes contra a humanidade. A todos foi permitida a escolha dos defensores, advogados ou não, mas essa missão tão ingrata quanto impossível, pois os acusadores, entre os quais, o mais destacado foi o norte-americano Robert Jackson. A maré de sangue havia sido estancado há apenas meses! As provas eram irrefutáveis e toda a Humanidade, horrorizada, pedia justiça para os milhões de inocentes que foram estrangulados pela máquina satânica do nazismo.
Emocionalmente, estava tudo preparado para a condenação dos réus. Os crimes contra eles avolumavam-se em pilhas de documentos apreendidos, em milhares de depoimentos, em milhões de pessoas massacradas, vítimas do selvático regime que conduziu os destinos da Alemanha durante anos.
Contudo, muitas são as objecções levantadas em torno do que se passou em Nuremberga. Como encarar o julgamento fora de um contexto estritamente político? Quais os fundamentos e as regras jurídicas que justificaram as penas? Violou-se o princípio de que não há pena sem lei (nulla poena sine lege ). Como compreender a absolvição de três dos acusados que, como era do conhecimento do Tribunal, foram peças importantes na máquina do III Reich?
Mas como julgar os dirigentes nazistas senão ajustando o mais possível as regras em vigor naquela época aos crimes por eles cometidos? Era preciso encarar no plano concreto os seguidores de Hitler. A via adoptada pelo Tribunal de Nuremberga continua a levantar muitas dúvidas, mas era impossível acatar a repetição daquilo que se verificou durante o julgamento de Leipzig a seguir a derrota alemã na primeira guerra mundial.
O julgamento de Nuremberga é geralmente qualificado como o maior julgamento da história (403 audiências plenárias e 2 400 horas de trabalho initerrupto…). A que realidades corresponde esta designação? Quando o encaramos pelos seus aspectos jurídico, político, moral e psicológico, não há dúvida que a designação se ajusta perfeitamente aos factos. Pela primeira vez se lançaram os alicerces de uma legislação penal internacional assente num princípio até então inteiramente desconhecido: a guerra de agressão passou a ser considerada um crime punível com a pena de morte, e o assassínio colectivo, o massacre por motivos raciais, religiosos ou quaisquer outros, designados com os mais hediondos delitos.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

As Amoras do poeta Eugénio de Andrade

Quando era miúdo corri e brinquei pelos campos como qualquer criança; apanhei amoras silvestres e o meu País era do tamanho da minha aldeia. Mas ninguém melhor que o poeta Eugénio de Andrade – já falecido – para associar as amoras bravas ao sabor do verão, à brancura dos muros e à dimensão da nossa Terra...
As Amoras

O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Eugénio de Andrade ("O Outro Nome da Terra")

quinta-feira, 11 de junho de 2009

As Conferências de Casino

A Conferência inaugural
A primeira conferência é anunciada pela “Revolução de Setembro” para sábado, 22 de Maio de 1871. Foi proferida por Antero de Quental, cujo manuscrito se terá perdido. Parece todavia que era hábito de Antero inutilizar os originais. Do seu discurso terá ficado aquilo que se convencionou chamar «Espírito das Conferências» porque não fora revelado o seu título. Há porém relatos publicados na gazeta “Revolução”.
Antero de Quental terá pronunciado o discurso de abertura das conferências e explicado a razão por que se faziam.
Todos sabiam que uma grande corrente de renovação estava agitando todas as sociedades. Era um grande movimento que se caracterizava por ninguém pedir nada ao passado e todos, universalmente, verem no presente uma época de transição para o futuro. Assim:
“Ninguém desconhece que se está dando em volta de nós uma transformação política, e todos pressentem que se agita, mais forte do que nunca, a questão de saber como se deve regenerar-se a organização social. Sob cada um dos partidos que lutam na Europa, como em cada um dos grupos que constituem a sociedade de hoje, há uma ideia e um interesse, que são a causa e o porquê dos movimentos.
Pareceu que cumpria, enquanto os povos lutam nas revoluções, e antes que nós mesmos tomemos
nelas o nosso lugar, estudar serenamente a significação desses interesses; investigar como a sociedade é, e como ela deve ser; como as nações têm sido, e como as pode hoje fazer a liberdade, e, por serem elas transformadoras do homem, estudar todas as ideias e todas as correntes do século.
Não pode viver e desenvolver-se um povo, isolado das grandes preocupações intelectuais do seu tempo; o que todos os dias a Humanidade vai trabalhando, deve também ser assunto das nossas constantes meditações.
Abrir uma tribuna onde tenham voz as ideias e os trabalhos que caracterizam este movimento do século, preocupando-nos sobretudo com a transformação social, moral e política dos povos;
Ligar Portugal com o movimento moderno, fazendo-o assim nutrir-se dos elementos vitais de que vive a Humanidade civilizada;
Procurar a
dquirir a consciência dos factos que nos rodeiam, na Europa;
Agitar na opinião pública as grandes questões da Filosofia e da Ciência moderna;
Estudar as condições da transformação política, económica e religiosa da sociedade portuguesa;
Tal é o fim das conferências democráticas.
Têm ainda elas uma imensa vantagem, que nos cumpre especialmente notar: preocupar a opinião com o estudo das ideias, que devem presidir a uma revolução, de modo que para ela a consciência pública se prepare e ilumine, é dar não só uma segura base à constituição futura, mas também, em todas as ocasiões, uma sólida garantia à ordem.
Posto isto, pedimos o concurso de todos os partidos, de todas as escolas, de todas aquelas pessoas que, ainda que não partilhem das nossas opiniões, não recusem a sua atenção aos que pretendem ter uma acção – embora mínima – nos destinos do seu p
aís, expondo pública mas serenamente as suas convicções, e o resultado dos seus estudos e trabalhos.
Lisboa, 16 de Maio de 1871 – Adolfo Coelho – Antero de Quental – Augusto Seromenho – Augusto Fuschini – Eça de Queiroz – Germano Vieira Meireles – Guilherme de Azevedo – Jaime Batalha Reis – J. P. Oliveira Martins – Manuel Arriaga – Salomão Saragga – Teófilo Braga.
Este foi o primeiro passo e um forte impulso para o movimento de ideias que um dia se traduziria em factos, em experiências, ora triunfantes ora malogradas.
Fotos:
Antero de Quental;
Adolfo Coelho;
Augusto Fischini;
Maunuel D´Arriaga

sábado, 30 de maio de 2009

As Conferências de Casino

III
A geração de 70
Antero, porém, que desembarcara em Lisboa, como um Apóstolo do Socialismo, a trazer a Palavra aos gentílicos, em breve nos converteu a uma vida mais alta e fecunda. Nós fôramos até aí, no Cenáculo, uns quatro ou cinco demónios, cheios de incoerência e de turbulência, fazendo um tal alarido lírico-filosófico que, por vezes, de noite, os dois cónegos estremunhados rompiam a berrar, o burro por baixo zurrava, desoladoramente, e no céu, sobre os telhados fronteiros, a lua parava, enfiada. Mas toda a nossa alma se ia nesse alarido, e o vento vão da boémia a levava, para onde leva as almas descuidadas e as folhas de louro secas…Sob a influência de Antero, logo dois de nós, que andávamos a compor uma ópera-bufa, contendo um novo sistema do Universo, abandonámos essa obra de escandaloso delírio – e começámos à noite a estudar Proudhon, nos três tomos da «Justiça e a Revolução na Igreja», quietos à banca com os pés em capachos como bons estudantes. Via-Láctea começou a varrer»
Foi Antero que imprimiu alguma ordem às reuniões indisciplinadas daquela mocidade turbulenta. Oliveira Martins e Ramalho Ortigão, atraídos pela importância dos problemas que ali se debatiam, não tardaram em intervir. Guerra Junqueiro como poeta e irreverente revolucionário. Outro vulto que se tornou assíduo do Cenáculo foi José Fontana que viria a desempenhar um papel importante no movimento democrático socialista. Batalha Reis a ele se refere do seguinte modo:
«As conversas tomavam então o carácter que ele infalivelmente lhes imprimia: a Revolução estala para a semana. E contava pormenores, mostrava cartas recebidas, que repentinamente lhe apareciam desdobradas nas mãos, e, num momento, também desapareciam, não se viam bem como, nas algibeiras interiores (…). «A Revolução social – seguir-se-ia, ou far-se-ia de per si só, de um modo infalível, absolutamente seguro, sem possibilidade de um revés».
Foi numa atmosfera buliçosa do Cenáculo que nasceu a ideia das conferências democráticas, já sob a égide de Antero de Quental, que todos consideravam, pela sua cultura e pela pureza das suas intenções, o seu verdadeiro “maestro”. Eça, na sua crónica, intitulada “Santo Antero,” diz-nos: «E do Cenáculo, de onde, antes da vinda de Antero (que foi como a vinda do Rei Artur à confusa terra de Gales), nada poderia ter nascido além da chalaça, versos satânicos, noitadas curtidas a vinho de Torres, e farrapos de Filosofia fácil, nasceram, “mirabile dictu”, as Conferências do Casino, aurora de um mundo novo, mundo puro e novo, que depois, oh dor! creio que envelheceu e apodreceu…»
Eça descrevia, a propósito das Conferências, num dos primeiros números das “Farpas”: Antes de haver conferências no Casino havia ali “cançonetas”.Mulheres decotadas até ao estômago, com os braços nus, a “pantorrilha” ao léu, a boca avinhada, cantavam, entre toda a sorte de gestos desbragados, um reportório de cantigas impuras, obscenas, imundas! Num verso bestial, a um compasso acanalhado, ridicularizava-se aí o pudor, a família, o trabalho, a dignidade, a honra, Deus! Eram também conferências do deboche. E havia muitos alunos!»
Fotos:1- Batalha Reis,; 2 - José Fontana e 3 -Eça de Queiroz.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

As Conferências de Casino

II
A geração de 70 (continuação...)
A ideia das Conferências de Casino surgira no ano de 1871 no Cenáculo, que “era uma reunião de rapazes”: uma espécie de boémia literária em que se discutia filosofia, letras, política, religião, tudo acompanhado de um berreiro ensurdecedor”.
Em princípio de 1867 ou 1968, em casa do sr. Jaime Batalha Reis, na esquina da Travessa do Guarda-Mor para a Ruas dos Calafates, actual Rua do Diário de Notícias, faziam parte deste primitivo grupo Eça de Queiroz, Salomão Saragga, Batalha Reis, Santos Valente, Mariano Machado de Faria e Maia e José Eduardo Lobo de Moura. Vinham também juntar-se a este grupo e participar nas ruidosas discussões, Augusto Fuschini, José Tedeschi, Fredeirco Filemon da Silva Avelino e o maestro Augusto Machado. Em Novembro de 1968 apresentou-se no Cenáculo Antero de Quental que regressara da Ilha de São Miguel. A influência de Antero era tal que passou a viver, pouco tempo depois, em casa de Jaime Batalha Reis. Conforme nos conta Eça de Queiroz - que já conhecia Antero de Coimbra :
« Enfim, Antero volta a Lisboa, encontra o Cenáculo. Encontra o nosso querido e absurdo Cenáculo instalado na Travessa do Guarda-Mor, rente a um quarto onde habitavam dois cónegos, e sobre uma loja em que se agasalhavam, como no curral de Belém, uma vaca e um burrinho. Entre essas testemunhas do Evangelho e esses dignitários de Igreja, rugia e flamejava a nossa escandalosa fornalha de Revolução, de Metafísica, de Satanismo, de Anarquia, de boémia feroz. Jaime Batalha Reis era o dono do aposento temeroso, e a Via-Láctea, galego ilustre, o seu servo. Via Láctea dormia pendurado, como um paio, da chaminé da cozinha. As suas ocupações não consistiam em escovar ou varrer. A Via- Láctea fora confiada a missão transcendente de espreitar a passagem da ideia ao longo do rio do Espírito, para nos avisar, e nós corrermos e a prendermos na rede rutilante do Verbo. Durante dois anos, cada dia, a hora de sol e a horas de treva, empurrámos nós com fragor a porta da cozinha, e berrámos com ânsia: « Via-Láctea! Via-Láctea! Viste enfim a Ideia Pura boiando na corrente Espiritual?...» E durante dois anos, Via-Láctea, de dentro da chaminé ou de sobre a tampa de um caixote, imutavelmente rosnou com uma dignidade triste: « Num bi nada». Aí Antero apareceu numa fria manhã – e foi aclamado.
Naquela viela de Lisboa ressuscitou então, por um momento, «a encantada e quase fantástica Coimbra».

sexta-feira, 22 de maio de 2009

A geração de 70

I
“A geração de 70”, vulgarmente designada, é o nome porque é conhecido a plêiade de jovens literatos que agitaram com ideias novas, combatendo as velhas, durante a década que decorreu nos anos de 1870 e 1880.Eram jovens de sangue novo e irrequieto que pretendiam demonstrar que a arte e a literatura não eram actividades isoladas e de mera inspiração pessoal como o pretendiam os patriarcas do romantismo. Rejeitavam pois a teoria da arte pela arte, então em voga.
Era urgente proceder a uma revisão crítica, penetrante e impiedosa de todos os valores em que a sociedade da época assentava. “O sistema de governo, os vícios da administração pública, os anacronismos da educação, a principiar pela universitária (…) e a acabar no ensino primário, tão escasso e atrasado neste País constituído por uma massa inerte, em que 90 por cento de analfabetos chafurdava na lama da mais crassa ignorância e da mais lamentável superstição, inconscientes dos seus verdadeiros interesses vitais. Perante um diagnóstico sombrio da sociedade portuguesa, estes jovens, recém-chegados de Coimbra e munidos do seu diploma de bacharel, entendiam que só uma revolução – cultural - podia reerguer a Nação do abismo para onde caminhava.
A importância da forma de intervenção destes jovens – cultural, cívica, social e política – junto da opinião pública e o seu impacto nos destinos da Nação conduziria, num futuro próximo, à queda da monarquia e à proclamação da República. São as famosas Conferências do Casino e o grupo dos cinco: Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Antero de Quental, Ramalho Ortigão e Guerra Junqueiro.
Continua…

domingo, 10 de maio de 2009

A intimidade de um beijo

Não sei se vou escolher as palavras certas, os substantivos, os verbos e a adjectivação adequada para exprimir o significado do beijo. Não do beijo como troca de afectos entre familiares e cumprimento de amigos - muito importante - mas do beijo entre um homem e uma mulher. Do beijo que envolve uma paixão, um sentimento de amor e um abraço apertado de corpo e alma; de um beijo desejoso da cumplicidade do olhar e apenas o silêncio das palavras. De um beijo que se dá à chegada e à partida, no início e no fim, entre amantes que se amam. De todos os beijos e também do primeiro beijo de amor. Das lembranças de uma melodia e de um poema cantado, de noite ou à luz do dia. Podia ser o primeiro beijo cantado por Rui Veloso:
Recebi o teu bilhete
para ir ter ao jardim
a tua caixa de segredos
queres abri-la para mim
e tu não vais fraquejar
ninguém vai saber de nada
juro não me vou gabar
a minha boca é sagrada

Ou o lindíssimo poema « estrela da tarde», de Ary dos Santos, cantado por Carlos do Carmo:

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

E para terminar, só mesmo com Vinícius de Moraes:
Como dizia o poeta
Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu
Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não
Não há mal pior do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer
Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão
Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada, não