segunda-feira, 30 de março de 2009

Eugénio de Andrade

Aprendemos, realmente uns com os outros. Todos nós na vida já demos e recebemos…
Para mim, Eugénio de Andrade era mais um poeta português, contemporâneo, sem referências de maior. Aprendi depois a gostar dele e a considerar um dos grandes poetas do século passado. Os seus poemas são de uma beleza e de uma profundidade ímpar. A simplicidade da linguagem, tão difícil de atingir, tem o efeito de um diamante brilhante.
Às vezes, parco em palavras e em sílabas, consegue dizer tanto sem tanto dizer!

Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.

Eugénio de Andrade

terça-feira, 24 de março de 2009

A tristeza e o sorriso

Hoje estou triste,
Triste porque um amigo partiu
Estou triste porque pressinto no presente a saudade de uma ausência
infinita.

Sorri quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos vazios

Sorri quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador

Sorri quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados doridos

Sorri vai mentindo a sua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz
Charles Chaplin

quinta-feira, 19 de março de 2009

Como é bom ouvir falar quem sabe…


Como é bom ouvir falar quem sabe…

De quando em vez, vejo o programa de Paula Moura Pinheiro, câmara clara, na RTP2, que acho extraordinário, quer pela forma como é apresentado quer pelo nível cultural dos convidados.
Neste último programa os convidados foram Adolfo Gutkin e Pedro Feytor Pinto. Feytor Pinto esteve exilado em Espanha, após o 25 de Abril e depois foi viver para Buenos Aires, e Adolfo Gutkin, que nasceu em Buenos Aires, seduzido por Cuba, acaba exilado em Portugal depois do 25 de Abril. Este interessante percurso de vida, de dois políticos inversos - como explica Paula Pinheiro – tem a uni-los o amor a Buenos Aires, as artes e a experiência do exílio. Ouvi-los falar daquela fantástica cidade da Argentina, da sua magia, cosmopolitismo europeu, de Jorge Luís Borges, Horácio Copolla, fotográfo, ou do tango de Astor Piazzola e Carlos Gardel, é um fascínio. Quem diria que um país sul-americano tem livrarias abertas 24 horas por dia!

Encantado com as suas intervenções e informado sobre a exposição gratuita no Centro Cultural de Belém, BORGES, COPPOLA, BUENOS AIRES – fui até lá… Em primeiro lugar, devo dizer que todo o material expostos – as fotografias de Coppola da década de trinta e os vídeos dos filmes alusivos a Borges, Copola e à cidade, havia uma boa sequência. Buenos Aires pareceu-me de facto uma capital europeia, moderna e bastante avançada para as décadas de 30 e 40 do século passado. Desde a arquitectura, dos edifícios ao traçado das ruas e avenidas, já movimentadas fartamente pelo automóvel, aos cafés e esplanadas, bem frequentados por homens de chapéu e mulheres trajadas ao fino gosto da moda. Na cultura, o gosto pela leitura dos jornais, pelos teatros, ópera e cinema; pelas bibliotecas e livrarias, pela música e pelo tango, são o testemunho dado por Horácio Coppola e Jorge Luís Borges. A cidade de Buenos Aires podia muito bem ser qualquer cidade europeia!
Ouvir as entrevistas de Jorge Luís Borges, mesmo que em diferido por vídeo, é o máximo! Transmite-nos não só um profundo conhecimento literário como escritor, ensaísta e poeta, mas também saber linguísticos e formação universalista. Os europeus, e nós também, temos motivo para nos orgulharmos dele. Afinal, ainda que longinquamente, o escritor ainda descende dos portugueses … Fiquei pregado ao ecrã ao ouvi-lo e disse de mim para mim: Isto sim, é literatura, é cultura é sabedoria! Senti-me tão pequeno que a única justificação que encontrei foi esta: Doravante, Borges passará a ser uma das minhas prioridades!

domingo, 8 de março de 2009

O Gosto dos outros.

O Gosto dos outros.
O Gosto dos Outros, título original “ Le Goûte des Autres” foi um filme francês que gostei de ver, sobretudo porque marca a diferença de personalidades associada a ideia de gosto (ou a sua falta…).
O trama é simples e talvez por isso interessante. Trata-se de um industrial bem sucedido – Castela - com muito dinheiro mas com falta de gosto! É o típico rústico, sem qualquer educação intelectual, que odeia o gerente da sua fábrica, um parisiense interessante. Nutre um quase ódio pela mulher e a sua diversão é comer embora não o possa fazer por causa da pressão alta! Um dia conhece alguém – Claire – que o faz mudar a vida chata que levava. Claire vai ao seu escritório dar aulas de inglês, mas Castela, sem interesse, dispensa a professora até que uma noite Claire revela-se uma actriz de teatro talentosa pela qual Castela logo se interessa…
O industrial é apresentado como alguém grosseiro e de gostos básicos que acaba por se apaixonar por Claire, mulher pertencente aos meios tidos como intelectuais.
Castela vai mudando e procurando agradar a Claire. É que ele possui afinal uma sensibilidade que apenas necessitava de estímulo enquanto, ironia das coisas, o que anteriormente era repudiado como essência de mau gosto de Castela vai fazer com que Claire se liberte das amarras do preconceito que a inibiam.
A conclusão que se pode tirar é que o “bom ou mau gosto” não é definido por uma regra que se aplique e pronto! A formação e o conhecimento ajudam mas não é tudo. O preconceito, a meu ver, é uma forma discriminatória de apreciar a arte.