segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Que farei amanhã (aposentação)

Este foi um dos poemas com que terminei o meu livro intitulado "Véspera de uma aposentação" e o vídeo que se segue diz respeito ao poema:


Que farei amanhã (aposentação)

Amanhã,

talvez fique em casa ver a chuva cair

sem ter de ir ao emprego ou levantar mais cedo.



Amanhã,

talvez retire da estante um livro inacabado,

de leitura desatento, por falta e sobra de tempo,

o recoloque no lugar de antes, sem o ler, novamente!



Amanhã,

Talvez…

quando a Primavera chegar,

e madrugada irromper,

vou ver o Sol nascer;

e, se calhar, colher uma flor

e oferecê-la à criança que encontrar.



Amanhã,

talvez me lembre do tempo vivido,

ligue a um amigo ou envie um e-mail...

Amanhã,

talvez finja que vá trabalhar...

se me apetecer…diga que não é verdade!

Amanhã,

podem crer, é de vez: - saberei o que vou fazer.

Amanhã, amanhã ...

Talvez!...





Álvaro Dionísio

domingo, 8 de outubro de 2017

Poema "linha recta" de Fernando Pessoa por Osmar Prado em O Colono







O Clone é uma telenovela brasileira (2001) que me fascinou bastante pela temática (o risco da clonagem humana) e pela interpretação dos seus actores. É aqui que entra o actor Osmar Prado, no papel de Lobato, um toxicodependente recitando o poema “linha recta” de Fernando Pessoa numa representação fantástica de Lobato:

 “Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.



Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...



Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,



Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?



Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?



Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que venho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

sábado, 7 de outubro de 2017


Boa tarde, boa noite, bom dia, conforme o ponto geográfico do Planeta Terra. há bastante tempo (alguns anos...) que deixei de escrever neste Blogger e que mesmo tem muitos visitantes! Agrada-me saber isso e então aqui vai um curto filme de um encontro de Fuzileiros; neste caso do 4º Destacamento realizado em 2008. Alguns dos nossos camaradas já partiram mas não foram esquecidos. Um abraço, Álvaro Dionísio.




segunda-feira, 17 de maio de 2010

Fronteiras de Integração. Portugal

8 Fronteiras de Integração
A criação de casas religiosas, de dioceses e do governo civil fazia parte da política portuguesa de integração. Integração que também no contexto da criação de um clero indígena e a aceitação de europeus em instituições como a igreja e o Governo que até então só incluíam portugueses de nascimento.
No final do século XV foram trazidos para Portugal jovens negros da África Ocidental. Receberam instruções e alguns voltaram aos seus locais de origem como padres ou catequistas.
Em 1518, em circunstâncias particulares, foi ordenado bispo de Utica um congolês. Esta foi uma iniciativa régia com o intuito de trazer jovens congoleses a Portugal para receberem instrução e depois criar um clero indígena.
Em 1571 foi criado um seminário em São Tomé e os seminaristas formaram um clero indígena.
Em 1541 foi criado em Goa o Seminário da Santa Fé, específico e exclusimanete para instruir jovens asiáticos e oriundos da África Oriental.
Os seminaristas, sobretudo seleccionados entre as castas mais elevadas, foram ordenados padres seculares. Embora a administração do Seminário estivesse a cargo dos Jesuítas, estes não estavam dispostos a admitir indianos na Companhia de Jesus.
No Japão, não existiam membros do clero japoneses; os que foram admitidos na Companhia de Jesus tornaram-se catequistas ou irmãos leigos.
Na China, não havia membros do clero chineses durante este período e no Brasil aconteceu o mesmo aos indígenas americanos.
Circunstâncias demográficas levaram a Coroa Portuguesa ordenar maior flexibilidade em relação à eleição de pessoas nascidas no local. Assim, em 1528, foi ordenado que os mulatos não fossem excluídos de cargos no senado de São Tomé.
Os “cristãos novos” desempenhavam cargos públicos em Goa mas nenhum “camarim” (hindus cristão) integrava o Senado de Goa (Boxeur, 1969:280, 282, 294, apud Russel-Wood, op. cit).
Na Ásia e mesmo em África, com pequenas excepções, o grau de integração permitido aos europeus era determinado pelos chefes locais e pelos seus povos. Na maior parte dos casos a presença portuguesa caracterizava-se pela interacção e não pela integração.
Quanto ao Brasil, os Europeus é que se impuseram aos povos indígenas.
A integração não se verificou no Brasil porque os próprios indígenas americanos negaram aos portugueses as condições prévias que poderiam ter conduzido a acordos e finalmente a integração. Mas, paradoxalmente, foi o Brasil a única região de todo o Império onde os portugueses tinham acesso a territórios muito vastos, onde exerciam domínio completo e gozavam de soberania quase incontestada pelos povos indígenas.
Em África, na Ásia e na América, criaram o seu próprio espaço mas há poucos exemplos de uma integração plena na área política, comercial, cultural ou social existente. Em vez disso, a associação tornou-se a norma e a convivência caracterizou as relações dos portugueses com os povos não europeus e não católicos.
Assim,
A discussão em torno das fronteiras de integração está condicionada por um conjunto de factores entre os quais estão considerados os parâmetros territoriais, largamente condicionado pelos tratados bilaterais, reforçados pela autoridade papal.
Nos cento e cinquenta anos (1415-1570), verificou-se uma mudança do contexto em debate: o que caracterizava por temas como “serviço de Deus”, as mentalidades cavaleirescas (honra e presa), as preocupações estratégicas e os interesses económicos que se conjugavam entre si: “Os factores políticos, económicos e estratégicos assumiram maior importância, embora o sentido da missão continuasse a ser muito importante."
O grau de desempenho no estabelecimento de colónias foi variável: verificou-se um apoio inequívoco à colonização da Madeira, dos Açores, de Cabo Verde, de São Tomé, do Príncipe e do Brasil. Verificou-se ainda um apoio e uma presença na Ásia e África. A diferença foi condicionada pelo contexto: enquanto a colonização foi encarada de sociedades e economias agrícolas, a presença portuguesa no ultramar baseava-se no comércio e numa barreira de protecção militar.
Nas áreas onde se encontravam implantadas as colónias, sobretudo na costa atlântica, os portugueses detinham o controlo. Esta presença verificou-se no Estado da Índia, embora a sua natureza fosse largamente condicionada por factores que escapavam ao controlo dos portugueses como seja o grau de aceitação demonstrados pelos povos não europeus e pelos seus chefes. Os portugueses, pelo seu lado, tiveram de pôr de parte noções preconcebidas de «alteridade» no desenvolvimento de relações com não europeus e não católicos. Esta capacidade dos Portugueses em fazê-lo permitiu-lhes interagir, desenvolver sociedades e criar a convivência.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Fronteiras de Integração. Portugal

7 Fronteiras de Integração
A clara predominância masculina na emigração portuguesa resultou inevitavelmente na escolha de mulheres indígenas, independentes da raça ou religião – como parceiras sexuais esporádicas ou mesmo para um relacionamento estável. Antes de 1570, foi na Índia que se verificou um único caso de um programa de iniciativa régia, de defesa aberta de relacionamento intercultural. A pedido de “alguns homens limpos de bem” que pretendiam casar e residir na Índia, Afonso de Albuquerque autorizou o casamento destes portugueses com mulheres locais.
A selecção e os critérios sobre o casamento local são reflectidos em cartas enviadas por Albuquerque a D. Manuel (respectivamente de 22-12-1510 e de 04-11-1514):
«Eu nunca tive devoção de casar homens com estas mulheres malabares, porque são negras e mulheres corruptas em seu viver por seus costumes; e as mulheres que foram mouras, são alvas e castas e retraídas em suas casas e no seu modo de viver, como os mouros desta terra têm por costume, e as mulheres brâmanes e filhas deles também são castas mulheres de bom viver, e são alvas e de boa presença” (Russel-Wood, op, cit, p. 253, Apud Bulhão Pato e Mendonça, 1884-1935:I, cartas VIII, LXXXIV).
Em Dezembro de 1510, Albuquerque escreveu ao rei comunicando que haviam sido efectuados quatrocentos e cinquenta casamentos e que havia oferecido a cada noivo um cavalo, uma casa, terras, gado e um subsídio monetário. As noivas traziam de suas casas ouro e jóias.
A rapidez e o sucesso destas uniões formais, em Goa mas também em Cochim e Cananor, criou opositores a Albuquerque e à sua política. Em Cochim, um monge dominicano opôs-se a esses casamentos.
Afonso de Albuquerque enquadrou a sua política no contexto mais abrangente da integração português: “ Estes que são casados, proveito têm feito até agora, porque nos olhos das gentes da Índia está assentado fazermos nós fundamentos da terra, pois vêem aos homens plantar árvores, e a fazer casas de pedra e cal, e a casar, e ter filhos e filhas”.
O ímpeto foi tão forte que, mesmo sem o apoio oficial, os casamentos funcionaram como um meio para a integração dos portugueses na Índia.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Fronteiras de Integração. Portugal

6 Fronteiras de Integração
O Congo transformou-se quase num protectorado português no início do século XVI e Ormuz era mesmo um protectorado português onde o Xá se mantinha em funções.
Por vezes, os portugueses recebiam direitos extraterritoriais, dos quais Macau era um exemplo notável. Em São Jorge da Mina, os portugueses receberam do governante local não só autorização para construir uma fortaleza mas também áreas circundantes, ou então autorização para construir um forte como foi o caso de Diu em 1535. Por vezes, essa autorização era concedida em troca da promessa de auxílio militar como aconteceu com Diu ou Adém, em 1548, quando D. Álvaro de Castro conseguiu acordo com o rei local. Existiam até casos em que os portugueses estabeleceram alianças militares com não cristãos de forma a alcançar objectivos políticos e militares.
Em termos administrativos ( e fiscais), os portugueses demonstraram também alguma flexibilidade em relação aos povos indígenas, preservando os sistemas de administração e colecta de tributos estabelecidos. Afonso de Albuquerque na Índia decidiu delegar a responsabilidade pela administração local e pela recolha de impostos na Ilha de Goa a um tanadar. Esta prática foi depois institucionalizada em 1526 pelo “Foral dos usos e costumes e pelo Foral dos foros e contribuições”, redigidos pelo vedor do tesouro real na Índia. Afonso de Albuquerque foi sensível às diferenças entre as comunidades hindus e muçulmana de Goa, nomeando os seus chefes respectivos.
O comércio era um grande ponto importante na presença dos portugueses no Estado da Índia. A Cooperação mais do que o domínio era o cerne da estratégia comercial portuguesa.
Em Malaca existia uma comunidade mercantil multinacional de hindus, tâmilas, muçulmanos guzartes, chineses, javaneses e lusones com o qual os portugueses negociavam. Os mercadores do Malabar forneciam aos portugueses mercadoria a crédito, faziam empréstimos e até chegavam a transportar as mercadorias nos seus próprios barcos.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Fronteiras de Integração. Portugal

5 Fronteiras de Integração
As Ordenações Afonsinas e as Ordenações Manuelinas separavam dos cristãos os judeus e os mouros, não apenas em demarcação de espaços onde podiam viver (mourarias e judiarias), mas também impedindo-os de usar vestuário cristão, castigando com penas de morte as relações sexuais entre membros de diferentes comunidades religiosas e proibindo os cristãos de se encontrarem a sós com um judeu ou um mouro de sexo oposto. “Infiel” e “sarraceno” eram termos utilizados para descrever os judeus e os mouros.
Os povos africanos não islâmicos eram referidos como “gentios”, “idólatras” ou “feiticeiros”. Os hindus eram referidos como “gentios”, tal como acontecia com os gentios americanos.
A diferença religiosa era condenada de forma mais dura do que a diferença em termos racial.
Antes de 1570, o critério em que os portugueses se baseavam para a aceitação ou exclusão do “outro” não era a raça, era a religião. A partir desta data os portugueses tinham uma experiência em primeira mão das maiores religiões no mundo: o hinduísmo, o budismo, o confucionismo, o tautismo e as religiões indígenas americanas.
Como refre A.J.R. Russel-Wood, por volta dos anos 1500, os portugueses tinham uma compreensão superficial mas baseada no conhecimento directo dos muçulmanos da África Oriental e do mar da Arábia, estabelecendo uma distinção entre “mouros de Meca”, “mouros da Arábia”, ou “mouros brancos”, e “mouros da terra”.
Posteriormente, o termo “gentios” passou a aplicar-se aos hindus, favorecidos pelos portugueses em detrimento dos seus vizinhos muçulmano. O tipo de relacionamento com não cristãos era muitas vezes acompanhado de ambiguidade e ambivalência da parte dos portugueses; porém, o pragmatismo substituiu o preconceito colectivo ou a desconfiança em relação a outros grupos religiosos.
A liberdade de praticar o comércio, a autorização para a construção de uma fortaleza ou o estabelecimento de uma comunidade portuguesa foram considerações determinantes da atitude portuguesa relativamente aos povos indígenas e aos seus governantes.

A presença física lusitana passou por uma multiplicidade de estratégias empregues pelos portugueses para alcançar o grau de aceitabilidade política necessária para essa presença e para empreendimentos de colaboração ou associação.
Conforme os casos, a presença portuguesa devia-se a conquista de cidades ou portos já estabelecidos, como Ceuta, Ormuz, Goa, Macau ou Colombo. No Brasil e em Angola, foi acompanhado de hostilidades contra os povos indígenas. Todavia, a integração portuguesa, na maior parte dos casos, resultou de um negociação com os governantes indígenas. Marrocos, no início do século XV, constituiu um precedente bem sucedido para a prática de senhores tributários, que pagavam a D. Manuel em trigo, cevada e cavalos. A política manuelina assentava no princípio de que “ os inimigos de hoje podiam ser os aliados de amanhã”.